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No meu Palato

No meu Palato

Boticas Hotel Art & SPA | Van Gogh e o (vestido) amarelo

"A arte é um esquivar-se a agir, ou a viver. A arte é a expressão intelectual da emoção, distinta da vida, que é a expressão volitiva da emoção... Assim, há dois tipos de artista: o que exprime o que não tem e o que exprime o que sobrou do que teve." Fernando Pessoa

Boticas Hotel Art & SPAJá há algum tempo que não estava tão indeciso com um título para uma publicação. "50 tons de amarelo" e "Uma sinfonia em amarelo maior" também me pareciam apropriadas, "ganhou", contudo, a que escolhi. Claro está é que o amarelo parece ter um papel de destaque no que vos vou contar hoje ;) Tudo por causa de um pintor holandês e de um belo hotel português.

Boticas Hotel Art & SPAHá um momento, por entre a encruzilhada de palavras escritas por Vincent Van Gogh nas cartas a Theo, seu irmão,  e as pinceladas coloridas em espiral que produzia nos seus quadros, em que a pintura deste génio se torna literatura, e temos a rara oportunidade de entrar na mente de um artista que nos explica, lucidamente, todo o seu processo criativo, imortalizando-o para a eternidade.

Boticas Hotel Art & SPAEssas palavras preciosas, tornadas públicas pela viúva de Theo Van Gogh, Joahnna Bonger, pincelam-nos com reflexões sobre o estado da arte, da interpretação pessoal e artística do mundo e com pensamentos, muitas vezes sombrios e tristes (mas sempre lúcidos), sobre as  profundezas dos sentimentos e as dificuldades da vida, da doença, do trabalho ... e também sobre uma cor.

Boticas Hotel Art & SPASe já tiveram a oportunidade de ver com atenção as pinturas de Van Gogh pertencentes ao segundo período da sua carreira (1886-1890), provavelmente repararam no surgimento implacável do amarelo. Foi nesta altura que a paleta de cores de Van Gogh mudou de tons mais terrosos e melancólicos para cores mais brilhantes e alegres, à medida que se ia familiarizando com as obras dos grandes impressionistas franceses. Tal como acontece com muitas outras coisas em torno de Van Gogh, parece não haver uma razão lógica e óbvia para o seu uso exacerbado do amarelo: seria um problema de visão, o resultado de beber absinto ou seria, muito simplesmente, uma preferência estética?

Boticas Hotel Art & SPA Tem havido um "montão" de especulações e teorias que procuram explicar o uso extraordinariamente particular do amarelo por parte de Van Gogh como uma prova inequívoca do consumo de drogas. A hipótese mais popular, entre os historiadores artísticos,  é a de que a sua provável patologia visual teria surgido com a toma de um medicamento, o digitalis que recebeu do Dr. Felix Rey em Arles para tratar convulsões. Outros, acreditam que a visão de Van Gogh pode ter sido prejudicada por um glaucoma/edema da córnea.

41.jpgIsso faria com que ele visse halos coloridos em torno de objetos iluminados, semelhantes aqueles que vemos em algumas das pinturas de Van Gogh, como as estrelas da sua genial Noite Estrelada. A minha teoria é outra. Terei todo o gosto em partilhá-la convosco, lá mais para o final... ;) A história do quadro Noite Estrelada cruza-se com a de outro grande pintor, português, quiçá o melhor do século passado: Nadir Afonso. Encantado, desde criança, pelos mistérios maiores da geometria do Universo, iniciou na análise deste quadro uma eterna busca pelas formas, pela geometria e pela matemática das obras de Van Gogh. Para ser justo, acho que Nadir tentou "matematiquizar" não só a arte, mas também a vida, os sentimentos e as emoções. 

Boticas Hotel Art & SPADessa vontade surge um livro, bastante ousado, onde tenta corrigir geometricamente alguns "erros" cometidos pelo pintor holandês, chamado "Sobre a Vida e Sobre a Obra de Van Gogh." Mas a obra de Nadir Afonso é muito maior (e mais) que este atrevimento, ocupando um lugar incontornável na história da arte contemporânea. Sedimentou os seus maiores feitos com uma singular produção escrita, de carácter teorizante sobre a arte, o objeto artístico e os seus fundamentos (neste aspeto acho-o muito parecido com Van Gogh), tornando-o hoje reconhecido nacional e internacionalmente, como atesta a presença das suas obras nas coleções de inúmeras instituições nacionais e estrangeiras de reconhecido mérito artístico e cultural.

Boticas Hotel Art & SPAParte dessas obras podem ser comtempladas no Centro de Artes Nadir Afonso, um espaço que perpetua a ligação do Mestre Nadir Afonso ao Concelho de Boticas, de onde era natural a sua mãe. Ao lado deste centro, surge o Boticas Hotel Art & Spa, que se assume como um projeto de arquitetura moderna e irreverente da autoria do filho do pintor ... o arquiteto Artur Afonso. Que bela homenagem ao pai...

Boticas Hotel Art & SPAEste hotel-peça de arte, com alma muito particular, para além de nos proporcionar um prolongamento do contacto com a vida e obra do grande mestre da pintura portuguesa (uma visita com a Françoise ao centro de artes é muito enriquecedora), ainda nos brinda com o conforto dos quartos, com uma vista arrebatadora da piscina exterior e com um misto de sofisticação e tradição na interpretação da deliciosa gastronomia barrosã, através do seu Restaurante Abstrato.

Boticas Hotel Art & SPASugestões para um belo repasto não faltam, desde a cremosidade balsâmica da  Quiche de queijo brie com frango, legumes e milho, até à untuosidade fresca do Ceviche de salmão, passando pela intensidade, sabor único e carne tenra e suculenta da Posta Barrosã com arroz basmati, ananás e cenouras baby

Boticas Hotel Art & SPANo entanto, o meu prato favorito foi a Truta com xuxu, caviar e presunto serrano. Pescada perto do hotel, no rio Beça, a Truta Fário (considerada por muitos como a “verdadeira" truta do rio)  estava super-fresca, adstringente e bastante saborosa.  Foi a melhor que comi até hoje...

Boticas Hotel Art & SPATodos estes pratos foram acompanhados com vinhos de pequenos produtores locais (excluindo como é óbvio o vinho do Porto): pelos morangos, damasco e frescura do Quinta de Arcossó Bastardo Rosé 2018, pelas flores brancas e mineralidade Quinta do Poldrado Branco 2017 e pela pimenta preta, tabaco, morangos e finesse do Quinta de Arcossó Tinto 2015.

Boticas Hotel Art & SPAA geleia de frutos silvestres, figos maduros, chocolate e complexidade do Quinta do Mourão S. Leonardo Vintage 2000 combinaram muito bem com as sobremesas, especialmente com o rico,  subtil e sofisticado Creme Brullé, com notas deliciosas de fumo, caramelo e baunilha.

Boticas Hotel Art & SPADestaco ainda a originalidade da Mousse de coco, a preocupação estética e despretensiosa de embelezar pratos tradicionais/regionais e o serviço de elevada qualidade que ali encontramos.  Há ainda um pequeno almoço delicioso e um ambiente muito "family friendly"  por todo o hotel (falta apenas uma piscina para os mais pequenos ;)) com salas de jogos, menus infantis, atividades para crianças e um conceito "open space"  que nos permite tirar o máximo partido de todas as mais valias do hotel, mas sempre de olho na pequenada e no COVID. 

Boticas Hotel Art & SPAÉ um daqueles espaços, que exprime bem o que sobrou do que teve, pois através da expressão intelectual de várias emoções, provoca em nós uma expressão volitiva da emoção ;) Ah, pois,  já me esquecia, falta a minha interpretação para o uso do amarelo por parte de Van Gogh, não é?

Boticas Hotel Art & SPA A explicação é bem simples, porque essa cor evidencia o que já é intrinsecamente bonito, tipo estes três da vida airada ;)

Parabéns a todos do Boticas Hotel Art & SPA pelo conceito tão inovador quanto enriquecedor com que nos receberam, que tenham muito sucesso. Obrigado!!!

Barca-Velha 2011 | Julgamento de Pedigrees

"Não imites nada nem ninguém. Um leão que copia um leão torna-se um macaco." Victor Hugo

Barca Velha 2011Antes do dia 24 de Maio de 1976, o "Julgamento de Paris" era "apenas" uma história pertencente à mitologia grega que se assumia como um prelúdio para a Guerra de Tróia. Nesse ano, e por causa dos vinhos, isso mudou e a expressão ganhou um novo significado, quando dois vinhos do Vale do Napa (Califórnia) "ganharam" contra os melhores Bordéus e Borgonha, numa prova cega realizada em Paris.

Barca Velha 2011Esta competição vínica foi organizada por Steven Spurrier, um jovem britânico e comerciante de vinhos em Paris, com o intuito de promover a expansão da produção de vinho no novo mundo. Para tal reuniu 11 juízes (dos quais 9 eram sommeliers franceses) para uma prova cega de 2 lotes de vinhos: um era composto por 6 Chardonnays da Califórnia e 4 Borgonhas de alta qualidade; o outro incluí 6 Cabernet Sauvignons da Califórnia e 4 vinhos tintos de Bordéus.

Barca Velha 2011Os juízes foram então convidados a dar a cada vinho uma nota com um máximo de 20 pontos. Em seguida, cada vinho recebeu uma nota geral obtida através da média das notas atribuídas pelos 9 sommeliers franceses. Para surpresa de todos, pois os vinhos franceses gozavam na altura de maior prestigio em todo o mundo, o Chateau Montelena 1973 e o Stag’s Leap Wine Cellars 1973, ambos da Califórnia, foram classificados como o melhor branco e o melhor tinto em cada um dos respectivos grupos.

Barca Velha 2011Hoje em dia, o Julgamento de Paris é descrito como a "prova que mudou o mundo", pois colocou os então emergentes vinhos da Califórnia no mapa mundial da enologia. Os defensores dos vinhos do velho mundo procuraram desvalorizar esta vitória do novo mundo referindo que os tintos franceses da lista eram muito jovens e que apenas estariam prontos para o consumo, (pelos menos) 12 anos mais tarde. Para refutar, definitivamente, este argumento Spurrier decidiu, no trigésimo aniversário do Julgamento de Paris, realizar outra prova cega.

Barca Velha 2011

No dia 24 de maio de 2006, sommeliers europeus e americanos, simultaneamente em Napa e em Londres, degustaram exactamente os mesmos vinhos de 1976. O resultado foi a vitória, ainda mais estrondosa, dos vinhos da  Califórnia: os 5 vinhos mais bem pontuados eram do vale do Napa. O vencedor foi o Ridge Monte Bello, que havia ficado em quinto lugar em 1976. Stag's Leap, o vencedor da primeira degustação, ficou em segundo. Os franceses ficaram da quinta à nona posição e, em décimo, apareceu um californiano. Foi assim que os vinhos do Napa conseguiram passar, também, pelo teste do tempo. 

Barca Velha 2011E é assim, que, na minha opinião, os grandes vinhos devem ser comparados, às cegas e com o factor tempo a ter sido tido em conta. Tudo isto, para vos falar da apresentação de um vinho cuja apresentação foi tudo, menos às cegas, o enorme Barca-Velha 2011. O local para tão nobre evento não poderia ter sido melhor escolhido, ocorreu em plena Quinta da Leda, berço adoptivo do Barca-Velha e da qual provêm a maioria das uvas usadas na sua produção (também são utilizadas algumas uvas "mais frescas" da Quinta do Sairrão).

Barca Velha 2011Composto por 45% de Touriga Franca, 35% de Touriga Nacional, 10% de Tinto Cão e 10% Tinta Roriz, este novo Barca-Velha foi envelhecido em barricas de carvalho francês, durante 18 meses. O lote final foi elaborado com base na selecção criteriosa dos melhores vinhos, resultante das inúmeras provas e análises efectuadas aos diferentes lotes e barricas existentes, ao longo deste período. Nesta selecção/avaliação dedicada e pormenorizada reside o "segredo" do Barca-Velha.

Barca Velha 2011Este Barca-Velha 2011 (700 €???, 100 pts.) apesar de ainda ser um benjamim, está cheio de garra. Traja um vermelho-sangue muito denso e o que me chamou inicialmente à atenção no nariz foi algo que também encontrei noutros Barca-Velha mais novos: os aromas deliciosamente sedutores a cedro, caruma, resina e charuto. A fruta parece-me mais presente que em edições anteriores com ameixa vermelha e cereja bem maduras. A mineralidade rochosa (xisto/argila), pimenta preta, baunilha, ligeiro picante vegetal (gengibre) e madeira muito bem integrada completam a experiência olfactiva deste vinho. No palato confirma as inebriantes notas do nariz e exibe taninos aguerridos e sólidos, harmonia e uma acidez "alegre" e cheia de vigor, quase electrizante. É complexo, elegante, equilibrado e ... interminável...

Barca Velha 2011Não é, sem dúvida nenhuma, o melhor Barca-Velha que provei, muito por culpa das obras primas dos aromas terciários do mestre Fernando Nicolau de Almeida dos anos 50 e 60 do século passado, da delicadeza "burgúndia" do Barca-Velha 1991 de José Maria Soares Franco e da precisão, personalidade e estrutura do Barca-Velha 2000 de Luís Sottomayor, todos eles provados com pelo menos duas décadas após a colheita. Dito isto, devido à arte e engenho de Luís Sottomayor, às condições que tem ao seu dispor, às particularidades irrepetíveis do ano de 2011, às características organolépticas e ao pedigree duriense que este vinho carrega, creio que poderemos estar na presença do melhor Barca-Velha de sempre. Em 2062, com 79 anos, estarei na posse de toda a informação que me permitirá uma melhor comparação dos vinhos e respectiva confirmação desta primeira impressão ;)

Barca Velha 2011Luís Sottomayor, na apresentação do Barca-Velha 2011 disse que este vinho é um leão que não tem medo de nada, de ninguém, nem de nenhum confronto. Para mim, e mais importante que isso, o Barca-Velha 2011 é um leão  que não copiou nenhum outro leão, que honra os seus antecessores e que com certeza irá trazer ainda mais fama para os seus descendentes.

É um vinho que não "usa" receitas vencedoras do passado mas que também não nega o seu legado, é um vinho que já dá uma prova muito bonita mas que o seu melhor ... ainda está para chegar. É um vinho nascido "humildemente" no Douro mas que num Julgamento de Pedigrees vai dar "coça velha" em alguns Borgonha, Bordéus e Napa. Parabéns Luís, este vinho é enorme!!!

 

P.S.: Espero, sinceramente, que tenham reparado nas semelhanças fonéticas entre Julgamento de PedigreesJulgamento de Paris, caso não o tenham feito, não merecem ser leitores deste blogue ;)